A freguesia de Santa Catarina do Cabo da Praia, segundo os documentos antigos comprovam, já existia em 1470. Pelo livro dos Baptismos desta paróquia, sabemos que nesta data, Inês da Ponte, casada com Bento Coelho e filha de João da Ponte, um dos quatro Povoadores da Ilha Terceira, adjunto do Capitão Donatário Jácomo de Bruges, foi madrinha do Baptismo de um tal “João” que se baptizou por esta data nesta freguesia.

Primitivamente existiu una pequena ermida com a invocação de “Santa Catarina” no cabo do areal da Praia, aproximadamente junto das primitivas casas construídas ao lado do Forte de Santa Catarina, e que foram destruídas para construção do Porto Oceânico.

Esta pequena ermida, enquanto não foi elevada a Paróquia era sufragânea da Matriz de Santa Cruz da Praia.

Tempos depois, e devido às muitas areias que se juntavam à volta dela, foi construída uma outra, colocada um pouco mais acima, num lugar que se chamava o “Tendal da Areia”, ou então naquela zona da Caneira que foi de João Fabrício.

Com esta segunda ermida, deverá ter principiado a Paróquia de Santa Catarina, que como estava no fim (no cabo) da praia, acabou por dar o nome à freguesia: “Cabo da Praia”.

Novamente motivado pela areia, a ermida de Santa Catarina mudou-se para o lugar do antigo cemitério, no ano de 1570 e finalmente, por algumas razões que não podemos alcançar, foi mudada para o sítio em que hoje se encontra. (em 18… para a actual situação). Templo de três naves. Arcaria em pedra, com quatro pias para água benta do século XVII, fixas noutras tantas colunas. No arco triunfal sobressaem as Armas Reais Portuguesas da mesma idade

Estevão Gonçalves Pereira, falecido em 4 de Julho de 1546, e sua mulher Violanta Luiz, foram os padroeiros da Capela Mor, para onde, em Testamento, mandavam transladar os seus ossos.

Como esta Igreja era muito pequena, no ano de 1724, houve provisão para citar os habitantes daquele lugar e os seus proprietários para que se ampliasse e concluísse a igreja, como se vê hoje e ao gosto moderno de então.

Todos os Genealogistas nos deixam a notícia de que Frei Roque Gil Fagundes, filho de Tomé Gil de Gouveia, foi o seu primeiro Pároco. Também sabemos que no ano de 1624 António Vieira Bocarro, era o segundo vigário.

Foi este António Bocarro que escreveu o termo de Óbito de Lizuarte de Andrade, neto do fundador da Capela-mor da Igreja do Cabo da Praia.

Havia nesta Paróquia em 1568 menos de 100 fogos, pelo que o seu vigário apenas recebia 20.000 mil reis de côngrua, mas por alvará de 7 de Agosto de 1590 foram-lhe acrescentados mais 5.000 reis, por já exceder os cem fogos.

Em 20 de Novembro de 1610 passou-se um alvará de acrescentamento às côngruas do vigário, cura e tesoureiro: e também se acrescentou a Fábrica da Igreja, Sabemos ainda, que no ano de 1838 havia nesta freguesia 200 fogos, e 924 almas maiores.

Os livros de Casamentos e Óbitos desta Paróquia do Cabo da Praia desapareceram até ao ano de 1624, pelo que se toma mais difícil conhecer o nome e as vivências dos primeiros habitantes.

Pe. Manuel Luís Maldonado nasceu no Cabo da Praia em 1645 tendo falecido em 24 de Outubro de 1711, foi capelão militar no castelo de São João Baptista quando esteve prisioneiro de D. Afonso VI. Deixou dois volumes manuscritos de muito valor com o título de “Phoenix Angrensis” onde se tratam muitos acontecimentos históricos.

Esta freguesia e a sua Igreja sofrem imenso pelos terramotos de 1800 e 1801, e muito mais ainda pelo de 15 de Junho de 1841. A obra de reconstrução foi bem executada, devendo-se ao Governador Civil José Silvestre Ribeiro todos os socorros administrativos.

A Freguesia do Cabo da Praia fica num aprazível lugar e voltada ao nascente. Tem as melhores e as mais planas terras da Ilha Terceira, sendo a sua vegetação quer de cereais, quer de outras plantas, a mais vigorosa de toda a Ilha. Até os frutos amadurecem mais cedo! … Do seu reduzido areal, sequência do da Praia, extraía-se a melhor areia branca para adubo das terras para o fortalecimento dos bons campos de agricultura e das luzérnas fortes na alimentação do gado ramo grande de que esta freguesia faz parte, também abundante em milhos, trigos, linhos e propícia á cultura de tabaco.

Todavia, o Cabo da Praia, sempre foi parco em água. Os primeiros Povoadores como não podiam traze-la do interior da ilha, resolveram desde a primeira hora este problema com a construção de “Poços”. Estes chegaram aos nossos dias, e não foi em vão que deram o nome a uma rua pela sua utilização, “Rua dos Poços”

Desde as Trunqueiras até ao Porto Martins, mesmo junto ao mar, não faltavam os “Poços”. Era bom que os jovens estudantes desta freguesia do Cabo da Praia fizessem um levantamento dos “Poços ” que existiram na Freguesia e arredores. Também não podemos esquecer aqueles que existiram na “Canada de Angra”, “Canada dos Pastos” e “Belo Jardim”.

No Cabo da Praia, primitivamente, sempre se usaram os “Pastos artificiais”, porque os do “Paul das Vacas”, onde recorriam os outros lavradores da jurisdição da Praia a sustentar dos seus gados de Maio por diante, ficavam muito longe.

Os antigos sempre disseram que não havia em toda a Ilha lugar mais sadio do que o Cabo da Praia e onde os homens vivem mais tempo. Esta notícia que vem desde 1704, dias ainda que nos respectivos assentos mortuários, encontramos pessoas que faleceram com 80 e 90 anos, e de noventa para cima até 100, há 8 homens. Com 102 anos faleceu um tal Francisco Gonçalves Rochado.

Nesta freguesia, que também teve uma companhia de “Ordenanças”, desde o começo do povoamento da Ilha, nela vieram viver vários homens distintos por suas qualidades pessoais e pela sua nobreza. Entre eles lembro “Vasco Gonçalves”. Supõe-se que era parente de Antão Vaz, a quem El-Rei D. Manuel mandou chamar desta Ilha Terceira, para que fosse povoar as Flores, donde avistou a pequena Ilha do Corvo.

Também supomos que Vasco Gil Sodré, natura1 de Montemor o Velho, que também foi morador no Cabo da Praia, só depois é que foi chamado pelo Infante D. Henrique para ir povoar a Graciosa.

Também consta que os três irmãos “Barcelos” vieram viver nesta Freguesia durante algum tempo. Igualmente habitou aqui Vasco Lourenço Coelho, que por seu testamento deixou à Igreja muitas terras, mesmo em frente à Igreja, e que depois foram entregues aos “Lobatos”.

Todos estes homens que aqui se vieram estabelecer, fizeram-no porque encontraram os melhores terrenos da Ilha, além de outras comodidades que lhe devia trazer a situação e a vizinhança da Praia.

Nesta freguesia do cabo da Praia, existiram várias Ermidas. Francisco Ferreira Drumond faz menção delas nos seus “Apontamentos Topográficos, Políticos, civis e eclesiásticos para a História das Nove ilhas dos Açores servindo de suplemento aos Anais da Ilha Terceira”.

Junto do calhau do mar, um lugar de burgalhão miúdo, abaixo das vinhas do Porto Martim, mesmo na beira do mar, existiu uma ermida do Apostolo “São Tiago “, que era cabeça de morgado instituído por Melchior de Aguiar, pelos anos de 1550, porém foi levada pelo mar na enchente de 2 de Novembro de 1755.

No meio do biscoito, para cima, fundou o Padre António Ramalho pelos anos de 1690 a Ermida da “Madre de Deus”. Era muito pequena, e à volta dela existira umas poucas casas onde ele e outros possuidores das vinhas ali passavam o verão. Foi destruída pelo terramoto de 1801 e hoje dos vestígios, apenas resta o nome do campo em que estava, e junto dela uma profunda Grupa com o mesmo nome.

A Ermida de Santa Margarida, que era cabeça de um pequeno morgado instituído a favor de uma das mulheres do recolhimento do Convento das Chagas, e que passou a fazer parte da capela de Brás de Ornelas da câmara. Nela se fundou o curato sufragâneo à Paroquia de Santa Catarina por solicitações do governador Civil Nicolau Anastácio Bettencourt.

A Ermida da Senhora dos Remédios foi construída ao lado do caminho que passa entre o Pico Capitão e a extremidade dos biscoitos e vinhas. Esta pequena Ermida foi fundada por Beatriz Ferreira, viúva de Mateus Correia por volta do ano de 1690, e o Padre Manuel Ferreira deixou-lhe uma pensão para que ali se cantasse uma missa no Domingo antes do Natal. Esta Ermida ao que julgo saber pertence ao cidadão Manuel Homem.

A Ermida de Santo António ficava situada na canada de Santo António que atravessa para a Ribeira Seca. De uma pedra que tinha no frontispício via-se a data de 1696. Pertencia ao senhor Padre Monteiro. Não se sabe quem foi o seu fundador.

A Ermida de São Vicente existia na beira-mar e já perto da fortaleza de Santa Catarina. Pertencia a um morgado da cidade de Angra. Durante muito tempo a população pagava a um frade Franciscano para lá ir celebrar nos Domingos e nos dias santos. Porém a partir de 1823 quer o morgado quer o povo deixaram de cuidar da capelinha de São Vicente, restando apenas na gira popular a frase que ainda hoje se diz: “O Santo é nosso”!. .. Esta ermida ficava junto ao primitivo caminho da Beira Mar.

Já dentro na freguesia do Cabo da Praia e ao norte da rua que se chama “Nova”. Baltazar Gomes Sodré, pelos anos de 1560, fundou uma Ermida com o nome de “Senhora dos Remédios”, e que foi do Capitão Manuel Vaz Borba. Parece que era grande e tinha um bom património, mas dela apenas resta o nome do lugar.

O actual cemitério foi inaugurado em 23 de Abril de 1950, até esta data, era utilizado o antigo cemitério.

Todas estas ermidas começaram a decair e a ser abandonados pelos moradores da freguesia, que nos tempos passados eram de numero reduzido e ficavam circunscritos à volta da Igreja principal Santa Catarina.

Antiquíssima que é, mesmo como paróquia independente, no Cabo da Praia, à semelhança de outras localidades, as festas em louvor do Divino Espírito Santo remontam aos primórdios do povoamento da ilha. O império datado de 1853 até Março de 1978 situou-se a direita da frente da igreja, neste momento e com a passagem da nova estrada o mesmo foi mudado para o novo armamento ficando voltado para a igreja e com a dispensa ao seu lado.

As ermidas da zona do Porto Martim sofreram do mesmo abandono pois os veraneantes depois da entrada do inverno deixavam o lugar entregue à mais completa solidão.

É de lembrar que os terrenos e arrabaldes desta freguesia do Cabo da Praia, apesar de férteis pela natureza dos terrenos, eram sobrecarregados por grossas rendas e pensões pelo que os seus colonos somente se consideravam uns pobres tributários dos morgados da cidade e da Praia. É de realçar de que esta freguesia nunca foi pobre mas sim remediada.

Para além de todas as figuras importantes já mencionadas é de salientar outras que foram importantes no século passado que foram: Manuel de Sousa Meneses que nasceu a 3 de Abril de 1890, formou-se em medicina e seguiu a carreira de facultativo militar, foi presidente da junta geral no distrito de Angra, deputado da Nação, e governador civil de angra desde Janeiro de 1953 até Dezembro de 56. Foi investigador e escritor. Angra tem uma rua com o seu nome.

José Borges Ferreira Nunes nasceu a 15 de Março de 1934, foi deputado pelo partido Socialista pelo círculo Terceirense á assembleia da República nos anos de 1976 a 1980, faleceu a 10 de Novembro de 1977.

Além destes nomes referidos, é de salientar ainda muitas pessoas que neste século XX foram grandes personagens e intervenientes no grande desenvolvimento cultural e progressivo desta freguesia.